CARTA 7: Dom Pedro, Maranhão, Brasil.
- 22 de mar. de 2015
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Estimado amigo Rémi:
Paz seja contigo!
Antes de tudo, preciso pedir que me perdoes por ter demorado tanto a responder desta vez, mas é que são tantos os cuidados de minha vida cotidiana que às vezes preciso postergar meus prazeres em função de minhas obrigações e foi o caso da resposta a tua última carta.
É normal e válido que não concordemos com todos os pontos de vista e posições um do outro, pois somos produtos de duas culturas diferentes, duas experiências de vida diferentes e até mesmo duas gerações diferentes e é bom que seja assim, caso contrário, uma grande parte da riqueza de nosso contato estaria comprometida pelo peso e pela monotonia das semelhanças. Eu também acho maravilhosa a ideia de discutir, ao sabor desta correspondência, uma a uma, essas coisas que nos diferenciam, pois isso me leva a questionar algumas de minhas quase certezas estabelecidas, o que julgo um exercício necessário no processo de continuar evoluindo como pessoa. Na verdade, é uma de minhas atividades recentes que mais prazer tem me dado.
Folgo muito que tua relação com as palavras seja a que descreves e te digo que nisso jaz uma de nossas semelhanças mais marcantes. As palavras são muito importantes para mim. Com efeito, posso dizer que, quando bem utilizadas, elas têm certo poder sobre mim. Talvez por isso a literatura seja uma de minhas distrações favoritas, como também a de escrever cartas.
Quando criança e adolescente o hábito de escrever cartas foi uma particularidade de minha formação. Não me lembro bem como comecei a fazer isso, mas me lembro que eu mantive uma correspondência bastante intensa entre meus dez e meus vinte e dois anos, e com gente de diferentes línguas e países, entre a qual Brenda Alvir Abraham, uma adolescente mexicana, sempre foi minha favorita. Aprendi espanhol em duas semanas por causa dela, sabias?
Eu entendo perfeitamente teu ponto de vista sobre o humor e preciso me explicar melhor sobre isso. O riso espontâneo, natural é bem-vindo mesmo quando nasce dos motivos mais simples e não é dele que estou falando. Meu questionamento, dirigido especialmente ao cinema e a tevê, pesa sobre o humor de mercado, traduzido especialmente na produção cinematográfica ou de tevê custosa, na qual recursos importantes são investidos para o fim exclusivo de fazer rir, às vezes no vazio. Eu não gosto disso, porque acredito que artistas de qualquer gênero têm que ter alguma responsabilidade útil e, de preferência, proporcional ao seu custo de produção. Deixa-me te citar um bom exemplo de uma série estadunidense de sucesso recente: How I Met Your Mother. A série tem tomadas de humor fabulosas, mas entre uma risada e outra ela discute de uma maneira leve elementos como amizade, valores familiares, lealdade, prioridades humanas, etc. Resumindo, eu ri muito com cada episódio, mas além disso a série me inspirou a ser uma pessoa melhor em diversos momentos.
Comparo minha relação com o humor de mercado com minha relação com a comida. Eu posso comer algodão doce uma vez ou outra, mas não tenho estômago para comer aquilo todo dia e me pareceria um absurdo que alguém investisse uma fortuna para manter um restaurante que servisse somente guloseimas, entendes? Se alguém o fizesse, certamente não me teria como cliente! Espero ter me feito entender melhor desta vez, continuando aberto teu direito de discordar, claro!
Quanto ao Charlie Hebdo, a cujo infortúnio nós dois devemos o gatilho desta amizade, eu chequei melhor o histórico do semanário e acredito que tu estás certo. É simplório classificar a irreverência da revista como racista. De fato, ela não é. E mais, seu humor negro, agressivo e político tem certa utilidade social, quer gostem disso, quer não, posto que fomenta sim a reflexão sobre temas diversos.
A questão do Estado Islâmico ocupa muito meus pensamentos, mas muito mais sua propaganda crescente fora de seus limites territoriais. Tenho acompanhado os casos de recrutamento de jovens franceses, belgas, ingleses e até o caso de dois brasileiros envolvidos com o sistema. E penso comigo: Pode gente tão jovem tomar decisões tão drásticas como o alistamento em forças militares estrangeiras sem o consentimento de suas famílias? Rémi, como é que um adolescente consegue planejar e custear a logística de deixar seu país e rumar para a Síria atravessando fronteiras sem que suas famílias percebam coisa alguma? Fico pensando nisso. Acho que a medida cautelar do Governo Francês em usar recursos áudio visuais é respeitável, mas insuficiente. A meu ver, seria preciso que o Governo adotasse uma política de redução de danos mais firme, usando o sistema educacional do país para informar com clareza os jovens sobre o que de fato está acontecendo e do risco que correm os que se deixam aliciar. Viste que isca a propaganda de recrutamento tem usado? O idealismo, Rémi! Esses jovens que estão sendo recrutados não querem ser terroristas e matar pessoas, nem servir de reféns em barganhas com a França, eles estão sendo iludidos, arrastados por uma mentira poderosa que precisa ser chamada pelo seu nome exato. Os bons mulçumanos franceses deveriam ser convocados para ajudar nesse processo preventivo, monitorando o que se ensina em suas mesquitas e recebendo incentivos para denunciar os aliciadores. Acredito que somente assumindo um discurso definido e firme contra a atividade de recrutamento do Estado Islâmico a França estará menos exposta. Sem essas medidas o medo crescerá dentro do país e inevitavelmente muitos inocentes pagarão ainda.
Teu trabalho com a juventude a teu alcance não é de pequena importância. Por experiência sei que os jovens respondem bem a quem se interessa verdadeiramente por eles e sei que sabes disso. Imagino que darias um professor e tanto, meu amigo! É algo sobre o que se pensar.
Sobre Dom Pedro, eu te digo que compreendo tua falta de interesse em conhecer o lugar. De fato, Dom Pedro não é nem de longe um dos melhores destinos no Brasil, muito embora esteja longe de ser perigoso e violento como imaginas pelas notícias que viste na internet. De um modo geral o lugar é até bastante tranquilo em comparação com outras cidades pequenas daqui.
Se eu penso em deixar Dom Pedro um dia? Sem dúvida! Eu gostaria de ir para um lugar com clima mais frio, porque nunca gostei, não gosto e nunca vou gostar do calor daqui. Também gostaria de morar num lugar onde eu tivesse mais opções de acesso à cultura. Gosto de cinema, teatro, exposições, palestras, cursos de idiomas, etc. Coisas das quais hoje desfruto menos do que gostaria apesar de ser bem equipado em minha casa para alimentar esses interesses. Do que mais sinto falta aqui no entanto é de gente com interesses afins. Alguns de meus alunos abraçam esses interesses, mas sinto falta de gente de minha idade, entendes? Eu quisera ter mais amigos adultos interessados nas mesmas coisas, gente com quem pudesse discutir, a quem pudesse alimentar e ser alimentado com uma visão elegante e produtiva do mundo. Às vezes olho algumas das pessoas ao meu redor, que são boas pessoas e sem dúvida respeitáveis, mas que dificilmente entenderiam minhas inquietações humanas mais profundas. Nesse sentido, viver em Dom Pedro me condena a um tipo muito particular de solidão e não quero isso para sempre. Acho que é compreensível.
Quanto aos artistas que me recomendaste, ainda estou em falta, Rémi. Perdoa-me! Foram semanas muito cheias para mim e sequer os pude procurar, mas oportunamente eu chegarei a isso.
Pelo que me dizes, teu conhecimento de idiomas e de suas culturas nacionais dá-se naturalmente, sem muito planejamento, diferentemente do que acontece comigo. Como vivo num rincão meio isolado do mundo, ao qual não são tantos os estrangeiros que vêm e onde meu tempo é limitado pelo trabalho e outras obras que assumo, eu preciso me organizar com material específico quando me debruço sobre esses temas. A internet tem sido de grande ajuda, claro! Acredito que ambos os modos de aprender têm suas vantagens e desvantagens. Não há certo e nem errado no assunto, de acordo? A propósito, teu português é impressionante!
Para terminar, eu te comento que ultimamente meu país tem vivido uma crise de redefinição cultural em diversas frentes, sem precedentes em nossa história. Há uma pluralidade confusa de discursos em toda parte, grupos que se digladiam projetam discursos com suas próprias prioridades em pauta, mas cometendo o erro de desrespeitar o direito alheio, de modo que o consenso é praticamente impossível, pois o diálogo é permeado por imposições e falho em negociação. Esse movimento de insatisfação disforme, estranho e ruidoso começou nas ruas, subiu ao congresso e agora permeia toda a programação televisiva, as publicações periódicas e as redes sociais. Há muita ignorância na base da coisa toda e eu contemplo tudo sem poder fazer muita coisa.
Recentemente, uma telenovela exibida em horário nobre pela Rede Globo de televisão, a mais importante do país, exibiu um beijo gay entre duas atrizes brasileiras muito famosas, Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Isso foi o suficiente para agitar o país inteiro, que já vem mergulhado em escândalos nacionais como o desvio de dinheiro na Petrobrás para fins corruptos e o infundamentado pedido de impeachment à Presidente Dilma Rousseff. O congresso chegou a emitir uma nota de repúdio, afirmando que a cena foi uma afronta a família tradicional e eu fico pasmo que esse tipo de coisa ainda aconteça num século como este; que os supostos guardiães dos interesses nacionais velem por temas de somenos importância como uma cena de telenovela, cogitando até mesmo reprimir direitos consagrados como o da liberdade de expressão. Isso tudo é tão provinciano quanto o é uma confirmação clara do atraso da democracia brasileira. Tão indouto, ignorante e obtuso é um número expressivo dos representantes do povo no congresso brasileiro, a ponto de se demorar na legislação de questões íntimas, que dizem respeito à liberdade individual somente e o absurdo dessa atitude dobra quando se levam em consideração todas as demais questões urgentes que requerem atenção para o bem do povo brasileiro.
Tu me disseste que os franceses são pessimistas e reclamões por natureza, mas que propõem poucas saídas para seus problemas. Bem, aqui temos um problema diferente: o brasileiro típico também reclama muito, mas propõe saídas demais para o mesmo problema, no entanto, geralmente para problemas que não pedem tanta atenção. Os que são verdadeiramente urgentes são deixados para segundo plano e quando discutidos, o são de modo equívoco, com direito de fala outorgado a quem sequer compreende bem as questões em pauta.
O sistema político brasileiro é mal estruturado e a representatividade não é real, mas a reforma política vem sendo postergada indefinitivamente e, quando for enfim discutida, duvido que mude muita coisa, pois será discutida pelos maiores beneficiários do sistema atual: uma maioria de parlamentares que estão entre os mais caros e corruptos do mundo, numa relação custo-benefício totalmente questionável. É complicado! Muito complicado! Contudo, vale lembrar que cada povo tem o governo que merece, pois governo algum da Terra e nenhum sistema político operante pode funcionar sem o consentimento de seu povo.
Não sei o que acontecerá a partir dessas comoções que meu país está vivenciando. É difícil de prever o que vem pela frente quando os discursos pró mudança são tantos e tão variados, mas sei que o Brasil não continuará o mesmo depois disso e só espero que a mudança seja para melhor.
Termino aqui com um abraço, meu amigo, desejando que teus melhores planos se concretizem segundo deseja teu coração. Fica bem!
Com sincera estima por tua pessoa,
David.



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