CARTA 3: Dom Pedro, Maranhão, Brasil.
- 25 de jan. de 2015
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Estimado Rémi:
Foi com grande prazer que li tua primeira carta e constatei a boa vontade com que te dispões a lançar-te em nosso projeto epistolar. De passo tenho que comentar tua redação bem organizada e detalhista, que muito me agradou já de entrada, como também a luz de inteligência que tuas frases elaboradas trazem quase que despretensiosamente. Deveras, creio que só posso esperar bons frutos das sementes que estamos lançando.
Bem, primeiramente ponho-me a comentar alguns pontos de tua primeira carta e em seguida visitarei outros assuntos, certo?
Sim, meu amigo, os comentários que semeias nas redes sociais ecoam e fazem pensar, razão pela qual chamo tua atenção para que continues com eles. Toda lucidez, seja muita ou seja pouca, é bem vinda nos dias em que vivemos e os comentários teus que cheguei a ler trazem, cada um, um quê de lucidez que não pode ser ignorado. Não duvido que alguns deles até exerçam alguma influência sobre quem se demora neles e nisso faço questão de lembrar-te de que a influência é um poder, que como tal pode ser exercido tanto para o bem quanto para o mal. É importante que sobre cuidado sempre que te ponhas a publicar tuas considerações sobre qualquer tema.
Disseste que esperas estar à altura da honra que, segundo tua opinião, esta correspondência implica, mas quanto a isso eu te asseguro que não estou nem um pouco preocupado, porque sei que estás.
Também reafirmaste teu apoio à Charlie Hebdo, assunto no qual não há discordância entre nós dois. Eu também apoio a liberdade de expressão, mesmo quando ela me parece maculada pela intolerância e o preconceito da pior espécie. Com efeito, sou da opinião de que há maneiras civilizadas de se discordar ou mesmo de alguém se opor abertamente a uma linha de pensamento qualquer, sem que se precise apelar para a censura e sem que sangue seja derramado. A censura, aliás, parece-me um recurso da fraqueza argumentativa ou mesmo da falta de uma razão que por si mesma se sustente, pois não é preciso ser necessariamente um gênio para se saber que a verdade em sua forma simples e bela não pode ser constrangida e nem ridicularizada sem prejuízo da justiça. Não é preciso que os bons temam por ela e nem que defendam com outra veemência que não seja sua própria vida cotidiana, de acordo? Assim, meu caro, eu também sou Charlie!
O sentimento de que temos muito a compartilhar através de nossa correspondência, de que nossas diferenças são uma riqueza, e de que isso nos levará a aprender muito um com outro também está presente em mim. Estou curioso sobre o que vem adiante, quando neste ritmo indeterminado penetrarmos às profundezas de quem somos. Quantas semelhanças encontraremos? Quantas diferenças pedirão aceitação por outras razões que não sejam o mútuo entendimento e que superaremos sem que jamais sejam conciliadas em nós? Acho que são perguntas válidas, Rémi!
Admira-me que alguém jovem como tu convirja neste interesse comigo, pois não somente onde vives, mas aqui também onde me encontro, a juventude parece ter perdido o interesse nos grandes temas, aqueles que gerariam os grandes homens e mulheres desta geração. Olho com certa melancolia para jovens entregues à frivolidade e ao culto do entretenimento, sem jamais se permitirem abraçar as grandes causas que fariam de suas vidas fonte de enorme bem para si mesmo e para outros, mas não posso dizer que já tenha perdido a esperança. Não! Eu ainda não!
Apesar de ver os filhos desta geração se estragarem um após outro no culto ao prazer sem compromisso e ao consumismo irracional, eu ainda acredito que as exceções existem e precisam ser encorajadas tanto quanto possível – A propósito, acho que ainda não te contei que sou adepto de um estilo de vida chamado « simplicidade alternativa », mas não faz mal que to diga agora. Ele consiste em se viver consumindo somente os recursos de que se precisa para se estar bem consigo mesmo, sem acumular demasiado e principalmente sem ostentação. Assim, eu não sou escravo de marcas e nem de tendências da moda e isso, meu caro, é libertador.
Gostei de ler em tua carta também que és um « curioso » e que tens um « desejo constante de aprender », pois neste ponto somos iguais. Costumo dizer a meus alunos que me dá um desespero quando penso em todas as coisas do mundo que eu ainda não sei. Com efeito, quando a Wikipédia estava estreando na internet e tive meu primeiro contato com ela, lembro-me de que minha sede de saber era tanta que passei toda a noite on-line passando de um artigo a outro sem muito critério para escolher.
Agrada-me ainda que estudes em Lille, pois tenho muita curiosidade a respeito dessa cidade francesa em particular. Não sei dizer quantas vezes meus pensamentos voaram para lá perdendo-se logo numa nuvem de falta de imaginação. Interessa-me que descrevas como as coisas são por lá, se quiseres, claro!
A propósito, sou formado em Línguas Portuguesa e Inglesa e Respectivas Literaturas, pela Universidade Estadual do Maranhão, onde me graduei com destaque, mas atualmente curso uma pós-graduação em Relações Internacionais pela Clio Internacional. Er, posso te perguntar o que despertou esse teu interesse em meu idioma? Fiquei curioso!
Dança e esgrima são práticas estranhas para mim. Gosto de ver as pessoas dançando performaticamente, digo, num palco ou numa apresentação, mas não me sentiria jamais movido a tentar, entendes? Não é uma coisa para mim! Quanto à esgrima, só vi na tevê ou no cinema e, em meu entendimento, a coisa toda remete à elite, às altas classes ou à nobreza. Não sei se seria a mesma coisa por aí.
Ao contrário de ti, eu não saio muito em minha cidade. As opções de lazer são parcas e não me chamam a atenção. Raramente vou a uma lanchonete com um ou outro amigo e ali ficamos de conversa fiada, mas isso tem sido cada vez mais raro. Talvez por isso também eu viaje tanto, para ter mais opções de lazer que as que são disponíveis aqui.
Sou muito tranquilo. Fora do ambiente escolar, evito as multidões e o barulho excessivo, mas não chego a ser um chato. Eu também sei me divertir quando tenho de fazê-lo.
Gosto de música e malgrado meu gosto seja até refinado, eu não toco instrumento algum. Arrisco compor uma ou outra letra alguma vez e uma banda daqui chegou a gravar uma letra minha (Quem), mas são experiências de amador, não tenho ambições definidas nesse campo tampouco.
Infelizmente em meu país a tradição da boa música tem sido enormemente prejudicada pelos interesses de mercado e tem sido difícil de encontrar nas gerações recentes cantores solo ou bandas que mereçam aplausos lúcidos. Letras que não dizem quase nada e nem elevam o espírito são apresentadas em melodias de qualidade discutível, carregadas de mesmice e vazias de encanto. É triste! Assim, eu me prendo ao legado até aqui não superado dos músicos brasileiros da década de 1980, como Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii, e Cazuza, cujas letras era de alta qualidade e continuam ecoando verdades bastante atuais.
Ah, a música! Entre todas a minha preferida tem sido por anos Perhaps Love, cantada em inglês por John Denver e Plácido Domingo. Tem uma letra que eu gostaria de ter escrito, simples, abrangente e poderosa como seu próprio assunto. Se a conheces, escuta-a de novo, lembrando-te de que gosto dela, Se não, procura ouvi-la atenciosamente e espero que também a aprecies.
Em teu idioma, gosto das letras dessa francesa Zaz e também desse belga ousado, Stromae - Mas também esses foram os únicos que o rapaz da loja de discos que visitei em Paris me indicou com convicção como populares no momento – Qual é tua opinião sobre eles?
Bem, tenho que me conter para não resvalar na tentação de tentar dizer tudo em uma única carta, por isso vou terminando por aqui, já ansioso por tua próxima carta, claro!
Atenciosamente,
David.



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