CARTA 5: Dom Pedro, Maranhão, Brasil.
- 31 de jan. de 2015
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Caríssimo Rémi:
Li e reli tua longa carta várias vezes antes de começar a responde-la. Parte para bem a compreender e parte pelo puro prazer de ter encontrado alguém que desfruta brincar com a linguagem e com as ideias tanto quanto eu mesmo. A propósito, é uma dádiva a espécie humana, não? Digo-o a pesar de todos os pesares: do egoísmo, dos preconceitos e das guerras... Somos ainda capazes de diferir em língua, cultura, gosto e idade, como tu e eu, e ainda assim capazes de descobrirmo-nos amigos no significado de pequenos interesses como o de escrever cartas e o de aprender a partir das experiências do outro.
Abriste tua carta mencionando Camões, esse ícone da lusofonia, que na história de minha língua tem seu lugar. Foi um pioneiro de fato, mas devo comentar que pensando na língua portuguesa e mais especificamente naquela que se fala no Brasil, eu dificilmente pensaria nele como a melhor ou a primeira referência. Não! Com seu português casto, aristocrático, mas enfadonho, Camões não me representa como lusófono, pois ando mais perto – muito mais perto – de Machado de Assis, Érico Veríssimo e mesmo do Jô Soares. A questão é que quando leio um e outros dou-me conta de que a expressão escrita não trai o espírito do autor, de modo que os três últimos autores brasileiros que mencionei, não somente pelo tempo decorrido entre eles e Camões, mas por algo mais que não sei explicar, podem ser sentidos como gente minha – Talvez sintas algo semelhante lendo em tua própria língua a prosa de teu patrício Victor Hugo em comparação com a de Léopold Sédar Senghor, que era senegalês.
Gosto da ideia de que mantenhas tua família e amigos a par disso que estamos fazendo. Também meus amigos e alunos aqui têm sido informados a respeito, mas receio que minha família não nutra interesse em projetos como este. Meus parentes são muito diferentes de mim em seus gostos e práticas, e com o tempo deixei de insistir em que isso fosse diferente. Num plano familiar pessoal, vive-se melhor aceitando alguns fatos da vida como são.
Sim, ser ouvido e lido por muitos implica em grande responsabilidade, mas que isso não nos sirva de mordaça, posto que às vezes também é preciso ousar e correr riscos ou a vida perderá muito de seu sabor. É preciso encontrar um equilíbrio entre as posições que assumimos e aquelas que nos convém assumir. Que não caiamos na tentação de querer questionar todas as verdades e renovar todas as coisas, nem nos acomodemos aceitando o mundo sem a menor pretensão de melhorá-lo! Acho que isso seria razoável.
Eu também gosto de rir e de fazer rir, mas me oponho a que um homem busque viver do riso fácil, porque acredito que isso o degrada. Aborreço às comédias escrachadas – sobretudo as norte-americanas – quando não se ocupam de acrescentar valor algum à existência humana, nem de fomentar a reflexão. Gosto de riso inteligente, daquele que me faz rir de minha própria ignorância, daquele que me motiva a melhorar como pessoa. Por exemplo, assistir Shallow Hal causa um efeito em quem pensa. O sujeito ri muito do absurdo das situações, mas ao fim é levado a repensar seus próprios valores – Eu mesmo passei dias com o filme na cabeça. Porém, assistir The Hangover conduz ao riso alienado, inútil, bem do tipo que me desgosta.
Também faz-me bem escrever-te, porque também organizo melhor minhas ideias e minhas reflexões. A sensação de estar me confessando a um psicólogo, aliás, é mútua – o que eu particularmente acho muito útil.
Sou meio obcecado com a ideia de utilidade. Não gosto de desperdiçar coisa alguma e menos ainda as oportunidades. Quando paro para ver tevê ou ler, escolho alguma coisa que me ajude a crescer, quando viajo, igualmente escolho um destino que me ajude a crescer. Assim, a prioridade que define minhas escolhas sempre é o quanto serei melhor depois disso, o quanto isso me ajudará a crescer como pessoa, de modo que até mesmo minhas amizades são definidas por esse princípio: amigos dos quais eu preciso, amigos que precisam de mim, e amigos dos quais eu preciso e que precisam de mim (meus preferidos). Todos estes são úteis a meu desenvolvimento pessoal.
Quanto à liberdade de expressão, não, tu não te equivocaste quanto a minha posição, mas preciso explicar-te algumas coisas. Também sou a favor de que a lei proteja o direito à honra de cada um. Ser a favor da liberdade de expressão implica em compreender que toda liberdade traz consigo responsabilidades e consequências. Aqui no Brasil, a lei prevê o direito de resposta ao ofendido, que pode usar o mesmo meio da ofensa publicada para defender-se. Além disso, uma vez constatada a difamação, o ofendido pode requerer e receber reparação, inclusive financeira por danos morais ou psicológicos sofridos. A questão é que toda liberdade evocada num plano de civilidade deve ser limitada pelos direitos alheios, inclusive o direito à privacidade e ao pudor, de outra forma correríamos o risco de fazer desmoronar as bases da civilidade que nos permitem viver em sociedade. Uma coisa tal como a liberdade absoluta só é possível entre os selvagens, não servindo de modo algum à causa humana.
Além disso, há verdades que simplesmente não precisam ser ditas, mas isso não tem a ver com liberdade somente, tem a ver com bom senso. Se eu vou a público arrancar os esqueletos do armário de uma pessoa, desenterrar seus defuntos mais fedidos, é preciso que fique clara qual é a minha motivação para isso, porque aprendi há algum tempo que em se tratando de pessoas, as verdades mudam, de modo que o que um dia foi verdadeiro sobre alguém, pode deixar ter deixado de sê-lo no curso de sua vida.
Contudo, o que aconteceu no caso do Charlie Hebdo foi um ataque direto a um dos pilares da civilização ocidental. Sua atitude de sátira e de crítica pode não ser a mais elegante do mundo, pode ser ofensiva até, mas há meios civilizados para se combater suas colocações, no caso de alguém querer fazê-lo. Pessoalmente, eu não estou de acordo com algumas das charges do semanário e reconheço sim muito de um espírito racista e preconceituoso nelas, mas uma coisa e outra deveria ser combatida em seu terreno próprio, a publicação ou mesmo o humor, nunca numa operação terrorista absurda como a que se deu ali.
Aos críticos do Charlie Hebdo, os que dizem que os mortos receberam o que mereceram, podes dizer simplesmente que eles estão errados, que ninguém merece morrer por ter feito um desenho não importa quão racista e agressivo tenha sido ele; que eles poderiam ter sido refutados pela palavra escrita, mas nunca por rifles e balas, porque o bom senso puro denuncia essa resposta como sendo totalmente desproporcional – Se concordarão contigo é outra história, vai depender do quanto são civilizados de fato os que te ouvirem.
Aos críticos dos mulçumanos, dize-lhes que o preconceito e a generalização são duas sérias limitações da mente humana e arremata perguntando-lhes quantos mulçumanos eles conhecem pessoalmente para falarem com tanta convicção sobre sua “índole perversa” – Aposto que não conhecerão muitos – Novamente, se concordarão contigo é outra história, vai depender do quanto são civilizados de fato os que te ouvirem.
Não precisas discutir com ninguém, meu amigo! Não precisas convencer ninguém de coisa alguma, a menos que alguém que te seja caro e próximo tenha uma opinião equivocada que implique em um risco para si. Tu mesmo disseste que a pertinência do raciocínio confere valor a uma opinião e intuo que sabes que nem todos os homens são capazes de raciocínios elaborados, do tipo que convoca respeito. Infelizmente, é uma realidade da vida como ela é, um efeito colateral da liberdade e da diversidade humanas.
Aproveitando a deixa, a questão do terrorismo tem ocupado muito meus pensamentos nos últimos tempos. Não há pauta de discussões definidas, nem liderança com quem se possa discutir. Essa ideia de um mundo novo onde grupos avançam sobre fronteiras e impõem suas convicções pela ameaça e pela força é um absurdo que não consigo digerir de modo algum. Acho que os governos da Terra têm dado menos importância a este assunto do que deveriam, não obstante tudo o que já se tem feito até aqui. Leio artigos sobre o fluxo de jovens franceses que são aliciados pelas forças do Estado Islâmico e isso me assombra. Por que o governo francês ou mesmo a Comunidade Europeia não tornam prioritária uma campanha publicitária mostrando ao grande público o que está realmente acontecendo? O que estão esperando ainda? A meu ver, passou do tempo de o governo assumir uma posição mais definida e mais clara no que concerne este assunto.
Aprecio que sejas uma alma em conflito com os valores superficiais e consumistas de tua geração, pois tais valores são outra coisa que me preocupa. Vejo uma geração inteira caminhando para lugar nenhum, presa nesse círculo vicioso demarcado pelo consumo inútil e pela diversão vazia. Continuamente advirto meus alunos contra essas coisas, nem sempre com sucesso, mas quando alguém escuta, é lindo!
Sou adepto de um estilo de vida chamado ‘simplicidade alternativa’. No que toca as coisas materiais, esforço-me para possuir somente o necessário, evitando tanto quanto possível a corrução da moda. Porém, admito que minha vaidade resiste ainda no que diz respeito à cultura, pois tenho mais livros do que consigo ler e mais filmes do que consigo ver – mas até nisso já dou sinais de melhora, ainda que pouco a pouco.
À tua idade eu também tinha dificuldade de encontrar entre meus pares uma visão de mundo similar – ainda acontece hoje. Sempre me senti fora de meu eixo, meio deslocado no mundo, exceto dentro da AEPRON, onde quase sempre tive a graça de encontrar um espírito afim. Mesmo assim, é uma experiência solitária ser diferente, querer coisas diferentes e sentir o mundo de outro modo. Em português chamamos o sujeito que se sente assim de “um peixe fora d’água”, ainda que eu me identifique mais com um “pássaro engaiolado”. Contudo, em vez de maldizer da vida, eu prefiro arregaçar as mangas, trabalhar para promover minha visão de mundo como posso e ver no que dá. Tem me servido de muito.
Sim, eu conservo minha esperança na juventude, não como consequência de minha carreira, mas como a causa dela. Concordo que os professores podem ter grande influência sobre seus alunos e acrescento que isso também implica em grande responsabilidade, uma que a influência é em si mesma um tipo de poder. E, sim, eu me orgulho muito do que eu faço em meu trabalho.
Por tua descrição, Lille parece mesmo encantadora. Mal posso esperar para visita-la! Com efeito, acho que começarei a me organizar para isso, preciso mesmo investir mais em meu francês e não haverá melhor maneira de fazê-lo que me aventurando de novo em teu país. Devo ir à Itália no fim do ano e posso pensar em estender a viagem até lá. Veremos!
Bem, passando a Dom Pedro, minha cidade. Temos cerca de vinte e cindo mil habitantes e somos uma cidade relativamente próspera. Aqui a atividade econômica ainda gira muito em torno da produção agrícola, da produção de cadeiras de macarrão, dos ofícios públicos, sobretudo ligados à educação e da previdência social. A cidade cobre uma área relativamente pequena, se comparada com as maiores do estado, tem um centro comercial não muito interessante e uma ampla zona rural. Lastimo muito o fato de que não tenhamos monumentos, nem museus, nem centros de interesse cultural e nem nada do gênero. A atividade de lazer, portanto, é drasticamente limitada aos bares, lanchonetes, igrejas e calçadas. Recentemente houve algum implemento nessa área, com a abertura de opções novas como o Cave Pub, de um local onde se joga pôquer e com a organização de ralis e vaquejadas. Antes nem isso havia.
Para meu gosto, acho minha cidade feia e desorganizada, mas não posso culpar as autoridades locais por isso, porque muito disso tem a ver com a falta de percepção estética de minha gente, como também com a cultura local de evitar obrigações sociais quando estas trazem consigo o mínimo custo – As pessoas jogam lixo na rua, entendes? Elas também fazem mal uso do que é público, de modo que as ruas são sujas e as praças são malcuidadas. Uma pena enorme!
Das pessoas não posso falar muito. Aparentemente a regra aqui é ser religioso ou folião, mas particularmente eu não me enquadro em nenhum dos grupos. Meus amigos quase todos são ligados a minha carreira, alunos, ex-alunos, outros professores ou pais. Saio pouco de casa, senão para comer com algum amigo, porque a cidade carece de oferta em meu campo de interesse. Assim, ocupo meu tempo com trabalho, estudo, também leio muito, vejo filmes e séries, e sempre que posso, viajo.
Deves então te perguntar o porquê de eu continuar vivendo em um lugar assim e eu me antecipo a explicar-te. Há aqui um lugar que me fascina, simples como um mosteiro, mas onde coisas extraordinárias acontecem em uma e outra alma: a AEPRON. Já vivi tantas histórias lá dentro, vi tanta coisa acontecer, fui herói muitas vezes, vilão algumas vezes, mas vi minha vida se encher de sentido no desempenho de minha função. A AEPRON tem sido o palco em que tenho me tornado uma pessoa melhor e melhor com o tempo e isso significa muito, Rémi.
Não consigo imaginar outro lugar em que eu possa trabalhar com o mesmo prazer e nem outra diretora a quem eu consiga servir com tanto gosto como sirvo a minha diretora, Dona Noronha. Há muito de afeto em minha relação com ela e com a escola e justo eu que sou tão objetivo quando se trata de contornar as emoções, não consigo me desvencilhar deste pequeno mundo que reflete tanto de mim e tanto em mim – É um mistério para mim!
Além de tudo isso, há ainda outra coisa. Se eu partisse para buscar meus sonhos, para viver minhas histórias, quem faria o que se supõe que eu devo fazer aqui? Quem diria a meus alunos que a bondade não é um luxo ou que a humildade é um poder? Quem se ocuparia de ensinar-lhes entre um verbo um adjetivo que perdoar não é justo, mas é bom no fim das contas? É complicado!
Lembro-me de que certa vez eu estava me preparando para partir e isso me causava grande aflição. Bem, como eu pessoalmente acredito em Deus – muito embora não como a maioria das outras pessoas tendem a acreditar – eu geralmente converso com Ele em segredo quando me sinto assim e contei-lhe como me sentia. Disse-Lhe que achava que era hora de perseguir meus próprios sonhos e desocupar-me da escola. Pois bem, naquela mesma noite eu tive um sonho muito realista com a visita de um velho amigo já falecido por quem eu tinha enorme consideração. Ele entrava comigo na escola e enquanto caminhávamos no pátio eu lhe dizia as mesmas coisas que dissera em oração na tarde anterior. Ele me ouvia calmamente até que sorriu e disse: “Meu filho, há homens que nasceram para os próprios sonhos e homens que nasceram para os sonhos dos outros” – Nisso eu acordei! Resultado: Eu não parti jamais - Não espero que entendas isso, Rémi. Só estou te contando.
Que pena que não gostaste de Perhaps Love! Acho que minha apreciação desta canção em particular tem um quê afetivo. A letra realmente me fala à alma. Tenta ouvi-la de novo e pensa sobre a mensagem que a letra traz. Não sei... Não é que tenhas que gostar dela, mas pode ser que tua apreciação mude. Pelo menos tenta!
Quanto ao rap carioca, eu prefiro não opinar por agora. Eu nunca me expus a ele, porque é algo um tanto fora de minha realidade e não representa nada que me interesse de fato. Pode ser que minha atitude tenha certo de eco de preconceito, assim vou parar para ouvir tuas indicações e ver no que dá – Eu não tenho problema em mudar de ideia quando é o caso.
Pode ser que estejas certo em tua opinião sobre Zaz, mas para meus ouvidos destreinados no francês, as letras dela ainda são muito bem vindas como adjutório. Além disso, eu gosto da voz dela. Porém, estamos alinhados quando o assunto é Stromae. Ele é realmente muito provocante e eu gosto muito das letras dele. Foi “amor à primeira audição”. Vou checar tuas demais indicações musicais e opino em outro momento.
É engraçado que enquanto eu te escrevo esta carta, possa ainda conversar contigo em tempo real usando o WhatsApp. Há alguns anos, quem diria que uma coisa assim seria possível? Fico feliz de que o seja hoje, mas mesmo assim não abro mão do prazer de escrever uma carta como esta. É um hábito antigo que faço questão de manter em mim até o fim de meus dias e fico grato que queiras fazer parte disso também.
Bem, meu caro, é hora de dizer até breve, pois esta carta está já na cota de nossos exageros.
Aguardarei ansioso tua resposta como sempre, pois receber tuas cartas e tuas impressões do mundo e da vida, como também escrever-te já constam entre meus prazeres destes dias.
Que fiques em paz e sejas feliz!
Teu amigo brasileiro,
David.



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